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Posto Cinegético da Chã da Macela

Criado em 2001, para produção de perdiz-cinzenta, o Posto Cinegético da Chã da Macela (MOE PT9B03X), localizado na Reserva Florestal de Recreio da Chã da Macela (Santa Cruz, Lagoa), viu recentemente a sua produção convertida para a perdiz-vermelha, com o objetivo de reforçar as populações desta espécie na Região.

Posto Cinegético da Chã da Macela. À esquerda, em construção. À direita, jaulas com reprodutores (em cima) e pré-parque com criação (em baixo) de perdiz-cinzenta.

A perdiz-vermelha foi introduzida nos Açores no século XVI, na ilha de São Miguel (Fructuoso 1522-1591).  No início do século XX era possível observa-la em Santa Maria, perto da costa, em São Miguel, onde era muito rara, na ilha Terceira, confinada ao Monte Brasil, onde era cuidadosamente protegida, e na ilha do Pico onde a sua abundância era razoável (Hartert & Ogilvie Grant 1905).  Nos anos 1960s, os Serviços Florestais terão começado a produzir a espécie em cativeiro, tendo-a libertado, em várias ilhas, onde chegou a ser caçada.  As alterações das práticas agrícolas e o esforço excessivo da caça terão levado à diminuição e/ou desaparecimento das suas populações, estando agora presente nas ilhas do Pico, Graciosa e Terceira (Equipa Atlas 2022), em níveis de abundância que não permitem o exercício da caça sustentável.

Em cima, parques utilizados em São Miguel, nos anos 1970s, para a adaptação ao voo (à direita) e lançamento de perdizes-vermelhas (à esquerda).  Em baixo, libertação direta de perdizes-vermelhas na ilha de Santa Maria.

Se as perdizes-vermelhas que ocorrem nas duas últimas ilhas poderão ter origem nos reforços realizados pelos Serviços Florestais até 2014, a partir do extinto Posto Cinegético das Fontinhas (Fontinhas, Praia da Vitória), na ilha do Pico, onde desde os anos 1990s os Serviços Florestais não libertam perdizes, a população poderá ter uma origem mais recuada.  Em qualquer dos casos, é possível que algumas das perdizes provenientes de explorações cinegéticas do continente, e libertas nestas ilhas, no âmbito de provas de Santo Humberto, ou para treino de cães-de-caça, tenham sobrevivido e se tenham cruzado com as aves locais, ajudando a manter as populações até à atualidade.

Instalações do extinto Posto Cinegético das Fontinhas (ilha Terceira).

Em grande parte dessas explorações cinegéticas, a perdiz-vermelha é normalmente cruzada com a perdiz-chukar (Alectoris chuckar), por esta ser mais prolífica (Blanco-Aguiar et al., 2008; 2022), potenciando a descaracterização da espécie na sua área de distribuição original, onde, estas produções híbridas são libertas todos os anos de forma massiva.

Assumindo que na ilha do Pico a perdiz-vermelha se estabeleceu antes da generalização desta prática, a população local foi analisada, não tendo sido encontrada evidência de hibridação com perdiz-chukar (Queirós et al., 2017), revelando-a como, potencialmente, uma das poucas populações selvagens de perdiz-vermelha pura que se conhecem a nível global, e que por isso, apesar de exótica, importa preservar.

Reforçar as populações de perdiz-vermelha estabelecidas na Região.

O Posto Cinegético da Chã da Macela é composto por um edifício técnico, um parque de reprodutores, e um pavilhão com três salas de criação e respetivos pré-parques e parques de voo.

Em cima, parque de reprodutores (à esquerda), incubadora (ao centro) e eclosora (à esquerda), com ovos e pintos de perdiz-cinzenta. Em baixo, pintos de perdiz-cinzenta, recém-eclodidos (à esquerda), com duas semanas (ao centro) e com mais de dois meses, já nos parques de voo (à esquerda).

As aves utilizadas para fundar o efetivo reprodutor de perdiz-vermelha do Posto Cinegético da Chã da Macela, foram obtidas a partir de ovos de uma exploração espanhola, recomendada por investigadores do Instituto de Investigação em Recursos Cinegéticos (IREC), por ser uma das poucas explorações de perdiz-vermelha que ainda produz aves puras desta espécie.

A análise de aves obtidas a partir desses ovos não detetou indícios de hibridação.

Os reprodutores são mantidos em jaulas, um casal por jaula, localizadas num parque exterior.

A partir de um efetivo fundador de 13 casais, foi constituído um efetivo de 66 casais, geridos em dois grupos (famílias) de forma potenciar a manutenção da diversidade genética no posto.  Atendendo ao efetivo fundador limitado, mediante os resultados das próximas épocas antevê-se a necessidade de importação de novos ovos/reprodutores, bem como a possível incorporação de reprodutores com origem na população de perdiz-vermelha da ilha do Pico.

Referências:

Blanco-Aguiar JA, González-Jara P, Ferrero ME, Sánchez-Barbudo I, Virgós E, Villafuerte R & Dávila JA. 2008. Assessment of game restocking contributions to anthropogenic hybridization: the case of the Iberian red-legged partridge. Animal Conservation 11: 535-545.

Blanco-Aguiar JA, Ferrero E & Dávila JA. 2022. Molecular DNA Studies in the Red-Legged Partridge: From Population Genetics and Phylogeography to the Risk of Anthropogenic Hybridization. In: Casas F & García JT (eds) The Future of the Red-legged Partridge. Wildlife Research Monographs, vol 6. Springer, Cham.

Equipa Atlas. 2022. III Atlas das Aves Nidificantes de Portugal (2016-2021). SPEA, ICNF, LabOr/UÉ, IFCN. Portugal.

Fructuoso G. 1522-1591. Saudades da Terra. Edição de 2005 edn. Instituto Cultural de Ponta Delgada. Ponta Delgada, Portugal.

Hartert E & Ogilvie-Grant WR. 1905. On the Birds of the Azores. Novitates Zoologicae 12:80-128

Queirós J, Rodrigues TM, Gonçalves D & Alves PC. 2017. Património genético da perdiz-vermelha na ilha do Pico – Resultados preliminares: análise do ADN mitocondrial. CIBIO. Porto, Portugal.