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Posto Cinegético das Furnas

Reformulado em 2005, após alguns anos experimentais em instalações provisórias, o Posto Cinegético das Furnas (MOE PT9E01X), localizado na Reserva Florestal de Recreio dos Viveiros das Furnas (Furnas, Povoação), veio substituir um antigo posto cinegético, onde se produziram perdiz-vermelha, faisão-comum e codorniz-japonesa, e está atualmente dedicado em exclusividade à produção de codorniz-dos-Açores para reforço da população desta espécie na ilha de São Miguel.

Posto Cinegético das Furnas. Em cima, antigas instalações para criação de perdiz-vermelha (à esquerda) e parques de voo com faisões-comuns (à direita). Ao centro, obras de requalificação. Em baixo, instalações atuais (à esquerda) e vista para os parques de voo (à direita), para criação e preparação de codorniz-dos-Açores.

A preocupação com a diminuição da abundância de codorniz na região remonta pelo menos ao século XVI (Fructuoso 1522-1591) tendo-se prolongado até ao presente.  As alterações nas práticas agrícolas e o aumento da pressão de caça foram sendo apontados como responsáveis por essa redução (da Silva 1974).  De forma a contrariá-la, em 1927, a caça à codorniz passou a ser regulada, e desde 1962 estabeleceram-se várias áreas para proteção da espécie.  Adicionalmente, durante o último quartel do século XX, as populações de codorniz começaram a ser reforçadas com aves provenientes de produção em cativeiro.  À época, nos Açores, como no resto da Europa, estes reforços eram efetuados com codorniz-japonesa, espécie irmã da codorniz, com a qual pode hibridar (Puigcerver et al., 2014), podendo conduzir à sua descaracterização (Puigcerver et al., 2007).  Esta prática foi interrompida durante os anos 1990s na Região e, de acordo com o resultado de análises moleculares realizadas recentemente, não se observam sinais de hibridação nas populações atuais de codorniz-dos-Açores (Ravagni et al., 2023).

A codorniz-dos-Açores, é uma subespécie endémica do arquipélago dos Açores, onde terá evoluído ao longo dos últimos 800.000 anos (Ravagni et al., 2023).  Difere da codorniz-comum, que ocorre no resto da europa, por não ter hábitos migratórios, ser mais pequena, e os machos terem a garganta mais escura (Hartert 1917; Guedes 2009; Gonçalves et al., 2011).  Além de estar isolada das populações continentais, a nível regional, observam-se indícios de isolamento genético entre grupos insulares (Guedes 2009; Almeida 2025).

Os reforços da população de codorniz-dos-Açores da ilha de São Miguel, com aves produzidas em cativeiro, foram retomados em 2003.  Esta medida visa, em primeira instância, mitigar a mortalidade associada à mecanização e intensificação das atividades agrícolas.  De forma a evitar a descaracterização das populações de codorniz, o efetivo fundador do posto cinegético passou a ter origem em aves capturadas na ilha de São Miguel, e a produção utilizada apenas para reforçar a população de codorniz-dos-Açores desta ilha.

Reforçar a população de codorniz-dos-Açores da ilha de São Miguel.

O Posto Cinegético das Furnas é composto por um único edifício, com sala de reprodutores, sala de armazenamento de ovos, sala de máquinas, cinco salas de criação e respetivos parques de voo anexos (~148 m2).

Em cima, sala de reprodutores (à esquerda), ovos em armazenamento (à direita). Em baixo, codornizes em sala de criação (à esquerda) e em parque de voo em acabamento (à direita).

O efetivo reprodutor é constituído a partir da primeira e segunda geração de codornizes-dos-Açores capturadas na ilha de São Miguel, e reproduzidas em cativeiro.  Para reduzir as consequências da deriva genética, e da seleção artificial inerente à adaptação ao cativeiro, tanto o efetivo fundador, como os restantes reprodutores são renovados anualmente.  Nas capturas anuais de aves para compor o efetivo fundador, procura-se variar os locais de captura, e evitam-se as áreas onde se realizam reforços populacionais.  Mediante alguns critérios, como a condição física, produtividade e idade, os restantes reprodutores vão sendo substituídos por aves mais novas, reservadas durante o último ano de produção.

 Após capturadas, todas as aves são anilhadas e caracterizadas, À direita, macho (em cima) e análise plumagem (em baixo) de codornizes-dos-Açores capturadas.

Os reprodutores são mantidos em jaulas, numa sala com luz natural, num ratio de 1 macho para 2 fêmeas.  Atualmente o posto dispõem de 56 jaulas, sendo mantido um efetivo de 168 aves.  De forma a ter um registo individual, todas as aves estão identificadas com anilha metálica com código alfanumérico único.

Nos últimos anos, o efetivo incluiu 12 a 18 aves selvagens (F0), e 150 a 156 aves nascidas em cativeiro (F1 e >F1).  A maioria dos reprodutores são aves nascidas na época anterior (~60%), sendo mantidas algumas no seu segundo (~25%) ou terceiro (~15%) anos de vida.

Variação do efetivo reprodutor de codorniz-dos-Açores mantido no Posto Cinegético das Furnas (verde: machos; branco: fêmeas).

Entre 2003 e 2025, a produção média anual no Posto Cinegético das Furnas foi de 2.290 codornizes-dos-Açores.  Embora o posto permita produzir mais de 3.000 aves por ano, o ponto de retorno decrescente rondará as 2.500 aves. Em produções maiores, o aumento da densidade de aves nas salas e parques de criação, reduz a qualidade das codornizes produzidas.  Além disso, a área relativamente limitada disponível para a espécie na ilha, não permite que se libertem muito mais aves.

Total anual de codornizes-dos-Açores produzidas no Posto Cinegético das Furnas.

Às sete semanas de vida, as aves estão completamente desenvolvidas, e prontas para libertação. No dia da libertação, antes de deixar o posto, cada ave é pesada, é determinado o seu sexo, e colocada uma anilha metálica com código alfanumérico único.

Recolha de codornizes no Posto Cinegético das Furnas (à esquerda) para libertação no campo (ao centro e à direita).

As libertações ocorrem semanalmente, entre maio e novembro, em áreas geográficas pré-definidas, fora das Reservas Parciais de Proteção à Codorniz.  Nessas áreas, são procurados locais, em parcelas agrícolas com condições favoráveis para a espécie, para realizar as libertações, sendo mantido um mínimo de 500 m de distância entre locais.  Em cada local de libertação são utilizadas 7 a 8 aves, colocadas diretamente no terreno, num ratio de sexos próximo da paridade, por ser o naturalmente encontrado na população selvagem.  Os locais são cartografados, caracterizados, e as anilhas das aves libertas em cada um, registadas.  Todos estes dados são informatizados, permitindo avaliar taxas de sobrevivência, e movimentação das aves libertas, a partir de recapturas, sobretudo através da caça.

Entre 2003 e 2025, na ilha de São Miguel, foram libertas 49.649 codornizes-dos-Açores, produzidas no Posto Cinegético das Furnas, numa média de 2.159 aves libertas por ano.

Total anual de codornizes-dos-Açores provenientes de criação em cativeiro e libertas na ilha de São Miguel.

De 2003 a 2024, entre maio e novembro, foram libertadas pelo menos 47.274 codornizes na ilha de São Miguel.  Destas, 639 foram recuperadas, sobretudo durante o período venatório (n = 592).  Das recuperações através da caça, 88,5% foram diretas (i.e., no período venatório imediatamente a seguir), 9,8% no segundo período venatório, 1,5% no terceiro, e 0,2% no quarto, mais de três anos após a sua libertação.  Em média ± SE (min – máx), os machos foram recuperados 183,70 ± 9,53 dias após a libertação (10 – 1.221), e as fêmeas 146,88 ± 7,77 dias após a libertação (10 – 909). A taxa de recuperação de anilhas não diferiu entre sexos, mas a sobrevivência (s) estimada ± SE pelo modelo Brownie, foi mais elevada nos machos, 0,17 ± 0,02, do que nas fêmeas 0,10 ± 0,02.

Em 2008, 2009 e 2013, 46 das aves libertas foram acompanhadas no terreno por rádio-seguimento.  Não se observaram diferenças na sobrevivência entre anos ou sexos.  A predação (50.0%) e as atividades agrícolas (33.3%) constituíram as principais causas de mortalidade (n = 12), tendo apenas uma destas aves sido caçada na época imediata à sua libertação.  A sobrevivência destas aves também não diferiu da observada em codornizes capturadas e marcadas no campo, seguidas pelo mesmo método.

Codorniz marcada com rádio-emissor (à esquerda) para acompanhamento no terreno por rádio-seguimento (à direita).

Durante as três épocas estudadas confirmou-se a nidificação de dez fêmeas provenientes de cativeiro. Uma delas foi encontrada a incubar 15 dias após a libertação, e no final do segundo mês em liberdade, a maioria das fêmeas que se reproduziu, já tinha nidificado.  O corte de erva e o pisoteio pelo gado foram as principais causas de destruição de ninhos (42,9%) e apenas um ninho apresentou sinais de predação.

Codorniz marcada com rádio-emissor a incubar (à esquerda), respectivo ninho (centro) e uma das crias (à esquerda).

A informação obtida a partir das recuperações de anilhas tem sido extremamente importante para anualmente aferir o sucesso dos reforços populacionais de codorniz-dos-Açores.  Sucesso esse que, o rádio-seguimento confirmou, demonstrado ainda que o contributo será maior, pois algumas aves se reproduzem pouco tempo após a sua libertação.  No entanto, o impacto que esta medida poderá estar a surtir na paisagem genética da codorniz-dos-Açores na ilha de São Miguel é ainda uma incógnita.  A DRRFOT, e a Associação BIOPOLIS, através de um protocolo de colaboração, estão atualmente a avaliar esse efeito.

Referências

Almeida MM. 2025. Unravelling the impact of population reinforcements on the genetic diversity of the Azorean Common Quail. [Tese de Mestrado em Biodiversidade, Genética e Evolução. Universidade do Porto].

da Silva AMM. 1974. Inquérito Sobre a Caça à Codorniz na Época de 1972/1973 (Ilha de S. Miguel – Açores) vol 3. Circunscrição Florestal de Ponta Delgada. Estudos, Experimentação e Divulgação. Ponta Delgada, Portugal.

Fructuoso G. 1522-1591. Saudades da Terra. Edição de 2005 edn. Instituto Cultural de Ponta Delgada. Ponta Delgada, Portugal.

Gonçalves D, Guedes AC, Leitão M, Davis S & Drovetski SV. 2011. Morphological differentiation of the Azorean quail. In: Puigcerver M, Teijeiro J, Buner F (eds) XXXth IUGB Congress and Perdix XIII. Barcelona, Espanha.

Guedes AC. 2009. A codorniz-dos-Açores, Coturnix coturnix conturbans: evidências morfológicas e moleculares de diferenciação. [Tese de Mestrado em Biologia. Universidade do Porto]

Hartert E. 1917. On the forms of Coturnix coturnix. Novitates Zoologicae 24:420-425.

Puigcerver M, Sanchez-Donoso, I, Vilà C, Sardà-Palomera F, García-Galea E & Rodríguez-Teijeiro JD. 2014. Decreased fitness of restocked hybrid quails prevents fast admixture with wild European quails. Biological Conservation 171: 74-81.

Puigcerver M, Vinyoles D & Rodríguez-Teijeiro JD. 2007. Does restocking with Japanese quail or hybrids affect native populations of common quail Coturnix coturnix? Biological Conservation 136: 628-635.

Ravagni S, Sanchez-Donoso I, Jiménez-Blasco I, Andrade P, Puigcerver M, Guedes AC, Godinho R, Gonçalves D, Leitão M, Leonard JA, Rodríguez-Teijeiro JD & Vilà C. 2023. Evolutionary history of an island endemic, the Azorean common quail. Molecular Ecology 33: e16997.